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Um coração cansado, apenas.

Publicado em Material às 21/Janeiro/2008 por Carlos Eduardo Hock Selhorst

Artur caminhava. Era o que costumava fazer todos os dias. Com 86 anos, costuma-se acreditar que não haja muitas opções de coisas para fazer, e era nisso que ele acreditava. O dia não era dos mais comuns. Ventava muito, como aquele vento que insiste em dobrar a coroa do guarda-chuva dos mais atentos. Não bastasse a corrente de ar, o calor deixava aquele dia de verão com clima de outono. Mas nada disso abalava Artur em sua típica caminhada pela beira-mar.

havia vivido muito, e por muito tempo, naquela cidade. que a vida não segue linhas retas, como as que as crianças buscam com o auxílio de uma régua. Ela insiste em nos pregar certas peças. Com isso Artur não contava. Não naquela altura de sua vida. Não daquele jeito. Não naquele dia. Talvez nunca, nem em seus sonhos mais absurdos, havia imaginado que aquele velho coração, cansado e doentio, pudesse bater até o dia em que seu mundo literalmente entrasse em colapso.

Mal podia acreditar no que seus olhos, mal-tratados pela catarata, estavam mostrando. Correu as mãos pelos bolsos da jaqueta marrom de veludo, mas não achou o que procurava. Aquilo não podia ser verdade. Não poderia estar acontecendo, mas seus olhos insistiam em dizer o contrário. Tateou os profundos bolsos de sua calça social quadriculada encontrando, enfim, seus óculos. Por trás das lentes amareladas e grossas, mal pode confirmar o que via. Os óculos, de armação grossa e escura, estavam embaçados e com marcas de dedos nas lentes.

Rapidamente, Artur bafejou uma, duas, três vezes em cada uma das lentes e, com movimentos circulares, limpou-as com a camiseta azul que vestia. Enfim pode enxergar melhor, mas a claridade do que via somente o deixou mais confuso e assustado. Como aquilo poderia estar acontecendo? Como?

Naquele dia Artur conheceu o caos. Naquele dia Artur se viu na rua. Não em um reflexo, mas em carne e osso. Como se estivesse vendo, com olhos de terceiros, ele mesmo com 17 anos de idade. Naquele dia Artur descobriu que não tinha vivido tudo o que tinha que viver. Artur, então,  renasceu.

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